Com um percurso improvável entre a banca, a indústria farmacêutica e a relojoaria, Oliver Ebstein assumiu a liderança da ChronoSwiss com a missão de preservar o ADN da marca suíça. Em entrevista à My Star Luxury, Ebstein fala sobre tradição, família, mercado global e os desafios de manter viva a paixão pelos relógios mecânicos num mundo cada vez mais digital.
Este seu percurso improvável foi extenso. Como descreve a sua jornada antes de se juntar à ChronoSwiss…
Antes de entrar no mundo da relojoaria, trabalhei muitos anos na banca e na indústria farmacêutica e nutracêutica. Fui funcionário, mas com funções de gestão, e cheguei a ser responsável pela construção de fábricas, como aconteceu na Roménia. Viajava muito e lidava com projetos complexos. Apesar disso, sempre fui apaixonado por relógios. Venho de uma família ligada à joalharia, por isso desde criança frequentava feiras em Basileia. Enquanto os meus pais iam para o setor das joias, eu ia para o lado dos relógios e voltava para casa com dezenas de catálogos. O meu primeiro cronógrafo a sério foi um presente do meu avô, e a partir daí tornei-me um verdadeiro entusiasta da relojoaria mecânica. Nunca pensei, no entanto, que iria trabalhar neste setor. Sempre fui grande fã da ChronoSwiss e a minha entrada na empresa aconteceu quase por acaso, quando conheci o fundador, Gerd-Rüdiger Lang, e começámos a conversar longamente sobre relógios, história e design.
Como surgiu a oportunidade de assumir a marca?
Foi uma coincidência feliz. Um amigo comum fez a apresentação e começámos a falar durante horas. O senhor Lang percebeu rapidamente que eu conhecia profundamente a marca e que não queria mudá-la radicalmente. Na altura, ele procurava alguém que continuasse o seu sonho. A filha não iria assumir a empresa e ele queria garantir que a identidade da ChronoSwiss fosse respeitada. Acho que ele sentiu que eu não ia “reinventar a roda”, mas sim evoluir a marca com cuidado.
Como se desenha a essência da ChronoSwiss atualmente?
A ChronoSwiss tem elementos muito fortes e reconhecíveis: a coroa, as asas, a moldura, a linguagem clássica do design. Isso faz parte do nosso ADN. Temos sempre o que chamo de “linha vermelha”. Podemos inovar no mostrador, nos materiais ou nas cores, mas nunca podemos ultrapassar esse limite. Um relógio tem de ser reconhecido como ChronoSwiss à primeira vista. Quando entrei na indústria, uma pessoa disse-me: “Tens de fazer relógios desportivos”. Começámos a fazer relógios desportivos e não resultou. Esse é o problema, tens de testar e não podes confiar em toda a gente. Deves ter o teu próprio entusiasmo e sentimento. Alguns erros custam muito dinheiro, mas agora estamos no caminho certo.
Num setor que mudou nos últimos anos, a ChronoSwiss continua a ser um negócio familiar?
Sim, continua. Somos cerca de 30 pessoas, o que nos permite manter um ambiente próximo e muito humano. As minhas filhas ainda são novas, têm 14 e 16 anos, mas já passam algum tempo na empresa durante as férias. Fazem tarefas simples, ajudam na logística, no inventário, e aprendem como tudo funciona. A mais nova gosta especialmente de trabalhar com as mãos, polir peças, lidar com materiais. É importante que conheçam o negócio desde cedo, mesmo que no futuro escolham outro caminho.
“Os Estados Unidos voltaram a ser o nosso maior mercado individual. Têm uma cultura forte de relojoaria e um público que valoriza produtos de nicho e de alta qualidade.”


O regulador é um dos símbolos da marca. Por que é tão importante?
O regulador está ligado à própria fundação da ChronoSwiss, em 1983, no meio da crise do quartzo. Naquela altura, o senhor Lang tinha poucos recursos e começou praticamente do zero, com peças que recebeu como pagamento. A ideia era tornar os relógios mecânicos interessantes novamente. Uma das soluções foi adaptar o regulador — tradicionalmente usado em relógios de parede — ao pulso. Isso era algo inovador na época. Funcionou muito bem e tornou-se uma assinatura da marca. Hoje, cerca de metade dos nossos relógios continuam a ser reguladores.
Que valores orientam o seu estilo de liderança?
Temos uma hierarquia muito plana. Somos uma grande equipa e somos uma empresa de tamanho familiar. Gosto de ouvir os relojoeiros, os designers, a equipa comercial. Quero saber o que pensam sobre os produtos e como os clientes reagem nos diferentes mercados. Trabalhamos num escritório aberto, onde a informação circula naturalmente, ajudando-nos a compreender bem a qualidade do movimento, das técnicas, do marketing, dos mercados. Acredito que as pessoas só se comprometem verdadeiramente quando se sentem respeitadas e valorizadas.
Por que foi importante simplificar o portefólio da marca?
Quando assumi a empresa, tínhamos cerca de 70 modelos e uma cadeia de fornecedores extremamente complexa. Era difícil gerir, caro e pouco eficiente. Não tínhamos verdadeiras famílias de produtos. Tudo era ChronoSwiss, mas sem uma estrutura clara. Além disso, a situação financeira não era a melhor. Decidimos reorganizar tudo, criar plataformas modulares e famílias bem definidas. Isso facilitou a produção e tornou a marca mais coerente, especialmente para atrair clientes mais jovens.
Como equilibra tradição e inovação nos designs?
O nosso slogan é “Mecânica Moderna”. Ele resume bem o que fazemos. Usamos materiais modernos, tecnologias atuais e uma linguagem visual contemporânea. Ao mesmo tempo, valorizamos o artesanato, o esmalte, as engrenagens tradicionais. Gosto de usar o Porsche 911 como exemplo: é um carro moderno, mas reconhecível há décadas. O nosso objetivo é exatamente esse — evoluir sem perder as raízes.
“A ChronoSwiss vive entre a herança mecânica e a inovação moderna”


Como vê o futuro dos relógios mecânicos na era dos smartwatches?
No início estávamos preocupados. Quando surgiram o iWatch, lembrámo-nos da crise do quartzo dos anos 80. Mas hoje percebo que são produtos diferentes. O smartwatch é uma ferramenta para uso diário que se troca a cada dois ou três anos. O relógio mecânico é uma peça emocional, é uma peça de investimento, quase uma joia. A indústria suíça adaptou-se. Produz menos em volume, mas muito mais em valor. Os 20 mil milhões de faturação em relógios na Suíça, são relógios de luxo.
A aceitação de criptomoedas e o mercado de segunda mão fazem parte dessa adaptação?
Sim. Fomos dos primeiros a aceitar Bitcoin, ainda em 2017 ou 2018. Tivemos um cliente que comprou 150 relógios dessa forma. Na altura trocámos por francos suíços, porque precisávamos de liquidez — hoje teria sido um excelente investimento (risos). Criámos também o programa CPO, de relógios certificados em segunda mão. Os nossos relógios são bastante caros e isso permite controlar a qualidade, oferecer garantia e tornar a marca acessível a mais pessoas. Para nós, é essencial manter uma relação próxima com o cliente, seja ele comprador de um relógio novo ou usado.
Como encara as vendas online em relação aos retalhistas?
Atualmente, tens de estar acessível onde quer que se encontre. Temos vendas diretas online porque hoje as pessoas querem comprar imediatamente, onde quer que estejam. Isso é uma realidade. Mas continuamos a valorizar muito os retalhistas locais. Eles falam a língua do cliente, conhecem a cultura e criam relações de longo prazo. Tentamos sempre encaminhar o cliente para eles, quando possível.
Que novidades podemos esperar da ChronoSwiss nos próximos anos?
Muitas. Não sei por onde começar. Queremos ter três famílias diferentes, três direções diferentes, todas com o ADN da ChronoSwiss. Estamos a desenvolver novas famílias de produtos, novas complicações e novos movimentos. Também estamos a recuperar técnicas artesanais antigas e a combiná-las com tecnologia moderna. Investimos muito no desenvolvimento interno — mostradores, guilhoché, design e módulos são feitos por nós. Trabalhamos com parceiros para os movimentos, mas o conceito e a propriedade intelectual são sempre nossos.
Que mensagem deixa aos entusiastas portugueses?
Portugal é muito especial para mim. Estamos presentes aqui há mais de 30 anos e trabalhamos com parceiros que também são empresas familiares. Os portugueses têm um gosto sofisticado, valorizam o design e o know-how. Há mercados onde as pessoas não valorizam tanto isto como em Portugal. É um mercado que entende verdadeiramente o que fazemos. Os portugueses são muito próximos do meu coração e espero continuar a crescer aqui durante muitos anos.





